Mathias Aires, Reflexões sobre a vaidade dos homens

A paciência é uma virtude com nota, mas raramente se arrepende quem a tem.

Quem disse que o amor é cego, errou; mais certo é ser cega a vaidade; p. 50

O homem não vem ao mundo mostrar o que é, mas o que parece; não vem feito, vem fazer-se; p. 62

A dissonância é uma harmonia.

Vemos as coisas pelo modo com que podemos ver, isto é, confusamente, e por isso quase sempre as vemos como elas não são. p. 63

Como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros?

Quantas vezes esperamos as sombras da noite com mais fervor do que as luzes do dia? p. 64

Os objetos depois de vistos muitas vezes ficam como diferentes da primeira vez que os vimos; perdem todo o nosso reparo e atenção: os olhos facilmente se esquecem do que sempre veem, não porque o costume nos tire a admiração, mas porque a fraqueza dos nossos sentidos a não pode conservar.

O amor não se pode definir; e talvez que esta seja a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar, é infinito o modo de sentir; por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o agosto e a dor não se podem reduzir em palavras. 

Não somos firmes no amor, porque em nada podemos ser constantes; continuamente nos vai mudando o tempo; uma hora de mais é mais em nós uma mudança. A cada passo que damos no discurso da vida, vamos nascendo de novo, porque a cada passo que vamos deixando o que fomos, e começamos a ser outros: cada dia nascemos, porque cada dia mudamos, e quanto mais nascemos desta sorte, tanto mais nos fica perto o fim que nos espera. p. 80

Vemos com saudade o tempo que passou; esperamos o que há de vir com ânsia, e para o presente olhamos com desgosto: assim devia ser, porque o tempo já passou, já não é nosso; o que há de vir não sabemos se será; e só o presente, porque é nosso, nos aborrece.

Que culpa pode ter a cera, por receber em si o caráter de uma imagem? p. 88

Os mais altos montes são os que se admiram, só porque custam a subir; a facilidade é aborrecida em tudo. p. 91

A vaidade é engenhosa em glorificar tudo o que vem de nós, e em reprovar tudo o que vem dos outros. p. 101

A ignorância tem produzido menos erros que a ciência. p. 105

Tudo em nós tem decadência, e só a ciência a não há de ter? p. 122

A corrupção das gentes está tão espalhada, que faz parecer virtude uma obrigação que se cumpre, uma dívida que se ser, mas pelo que poderiam ser.

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