Clarice Lispector, A hora da estrela

The hour of the star

Pensar é um ato. Sentir é um fato.

O que amadurece plenamente pode apodrecer.

Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Outra vez ouvira: “arrepende-te em Cristo e ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera. Como não sabia bem de quê, arrependia-se toda e de tudo.

Parece-me que sua vida era uma longa meditação sobre o nada.

Tornara-se com o tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação de ser infeliz de uma vez e ter pena de si.

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.

Braços vazios sem abraço.

“Através da música, adivinhara talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma”.

Eu vou ter tanta saudade de mim quando morrer.

Você é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer.

Quem não se enfeita, por si mesma se enjeita.

Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber.

“Quanto ao futuro.” Terá tido ela saudade do futuro?